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Livro comemorativo

  Esta semana comecei a preparar o livro que para já intitulei como “10 anos”, terá outro título que ainda não sei. Digo que comemoro dez anos de publicações de romances, mas comecei a publicar textos da minha autoria em 2009 com a escrita de textos de opinião/reflexões para o site do jornal Expresso, ao longo de cinco anos. Paralelamente, escrevi para o meu blogue pessoal que criei pouco tempo depois e que mantenho até hoje. Por isso, reúno material escrito há 15 anos. Será então o livro dos 15 anos em vez dos 10 anos, pois pretendo incluir material anterior a 2014, ano em que publiquei o meu primeiro romance, A Segunda Pele da Acácia Mimosa. A maior parte do que escrevi ficará de fora, por enquanto, seria impossível publicar tudo num só livro e, sinceramente, precisaria de ajuda de uma editora para o fazer. Tenho textos de todo o tipo, reflexões sobre o ser humano, atualidade, sociedade, textos em registo de diário, contos, poemas, diálogos, enfim, talvez tivessem de ser divididos

Quietude

Hoje, venho fazer apenas um elogio ao silêncio, ao simples, ao pouco, ao estar. Poucas pessoas, poucos estímulos, poucas coisas, só estarmos. Querer ter muitos amigos é ilusão e engano, muitos objetos é poluição visual e tralha para arrumar ou limpar, muitos compromissos é desassossego e consumo do corpo e da alma. A sexta-feira lembra-me disto, de abrandar, de ouvir o próprio espírito, de sentir quem importa, de estar entre aquilo que importa. Sossego, silêncio, os sentidos apurados pelo nada.   Ana Gil Campos   (Próximo texto dia 7 de junho.)

Pela marginal

Num dos dias entre os dois feriados anteriores, eu e o meu marido, de férias nessa altura, resolvemos sair de casa para um passeio a pé junto à marginal. Num local, mais precisamente num banco público, estava reunido um grupo de homens com idade de serem avós, e um deles apontou com desdém na nossa direção e disse: “daqui a dez anos esta malta tem cidadania portuguesa.” Tive vontade de lhe responder que já a tenho há mais de quarenta anos, mas segui, preferi deixá-lo na ignorância onde provavelmente se sente bem. Sendo portuguesa, vivi uma situação que muitos emigrantes devem viver diariamente. Há pouco, o nosso presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa, durante uma refeição, afirmou que os “orientais são lentos” referindo-se ao português António Costa, anterior primeiro-ministro. É isto que se tem visto, ouvido, comentários sem ponta de razão, de lógica, de respeito pelo outro ou por uma nacionalidade, seja ela qual for, até a portuguesa. A xenofobia, a obsessão pelo que o o

Mesquinhez

  Tudo é cíclico na busca incessante de equilíbrio, assim se tem feito a história, evoluindo lentamente, mas evoluindo, com a necessidade de que a lei seja implantada primeiro antes de as mentes preconceituosas se adaptarem, antes de abrirem as suas perspetivas ao respeito pelo ser humano. Por vezes, questiono-me se o preconceito não será apenas a expressão dos próprios medos e se não deveriam ser as pessoas portadoras deles a tratarem-se ao invés de quererem “tratar” a sociedade. O livro “Identidade e família” — apresentado pelo antigo primeiro-ministro que ironicamente convidou os jovens a emigrarem e, assim, a cancelarem ou adiarem a construção daquilo que consideram como família tradicional —, talvez seja o reflexo dos medos de cada autor. Se é verdade que a democracia permite a discussão de diversas e opostas opiniões, como defendem e bem, também é verdade que a mesma democracia permite a liberdade individual de cada um sem que interfira com a liberdade do outro. Direitos conqui

Emojis

  Primeiro, quando se começaram a usar emojis , pareceu-me absurdo, infantil. Mas, como se sabe, primeiro estranha-se, depois entranha-se, assim escreveu Fernando Pessoa sobre a Coca-Cola. Comecei a usá-los timidamente até não hesitar em os usar, sempre com alguma moderação, espero. Agora, sinto-me a retroceder a esta forma de expressão que tem muito de piroso. Admito que é útil quando, por exemplo, perante uma mensagem à qual não se sabe muito bem o que responder e também não se quer ser indelicada não respondendo nada, enviar um simples sorriso resolve a questão. Também entendo que é uma forma de conseguir que as outras pessoas se tornem mais recetivas às mensagens ou emails , mas chegamos a um ponto em que quem não os usa parecem pessoas impregnadas de profunda frieza. Talvez, ao deixar de usar emojis — uso-os cada vez menos —, passe a fazer parte do grupo de pessoas que parecem apáticas ou antipáticas, mas para que serve a escolha das palavras, a forma como as frases são construíd

Dia Internacional da Mulher

      Ser mulher, dia da mulher, dia internacional da mulher. Todos os anos escrevo um texto sobre este dia e todos os anos me parece estar tudo escrito, todos os anos considero que não tenho mais nada para escrever no próximo ano e, no entanto, todos os anos abro o caderno, pego na caneta e escrevo sobre o que me habita no dia internacional da mulher, sobre esta pluralidade de ser que nos permite ver em pequenos espelhos, por partes, em cada mulher diferente. Não há nenhuma mulher que não tenha um pouco de outra mulher, quer naquelas por quem não se tem ponta de admiração, quer naquelas que nos inspiram. Mas talvez isto seja coisa comum ao ser humano, homem ou mulher, a individualidade de cada um funde-se na pluralidade.     Seria bom existir um dia único para todos, bastar apenas o dia internacional dos direitos humanos onde todos se reveriam, apoiariam e festejariam. Contudo, parece continuar a ser necessário o dia internacional da mulher porque tudo se repete e é cíclico na histó

Gerações de eleitores

Dados têm apontado para a tendência dos indivíduos do sexo masculino da geração Z — nascidos entre 1995 e 2010 — se posicionarem politicamente à direita — o que contraria a ideia de julgarmos que os jovens são mais vanguardistas —, ao contrário das mulheres que se têm posicionado à esquerda, embora Portugal não seja um caso evidente apesar da mesma tendência se ter vindo a verificar. Por que será que os homens jovens se têm mostrado mais conservadores apoiando líderes autoritários que lhes parecem fortes e prometem ação, e as mulheres mais progressistas? Tenta-se encontrar justificação para esta tendência à direita em relação ao género masculino na perda de referências como a religião, família tradicional, questões de género e orientação sexual. Mas estas não são questões comuns às mulheres jovens?   Depois de séculos de opressão e de desigualdade de direitos, onde as mulheres eram tendencialmente à direita até à década de 1970, fruto de costumes e hábitos de pensar tradicionais