Implorável

 

Pousei a palavra implorável sobre uma mão, parecia serena, as letras encaixadas pela ordem certa: i-m-p-l-o-r-á-v-e-l. Arrastei a cortina com a outra mão e tentei encontrar aquilo que seria impossível implorar, tudo me pareceu viável. As paredes brancas do quarto também não ajudaram, nem a cama por fazer, nem o lavatório ainda molhado dos primeiros cuidados da manhã, nem o armário de vestir que guarda o perfume dos dias de chuva. Comecei a descer as escadas devagar, a palavra implorável sobre as mãos em concha. Não sei se tropecei ou se foi da vibração dos passos, ou se algo as assustou, mas começaram a cair ou a saltar para os degraus, letra após letra. No fundo das escadas, olhei para trás e lá estava a palavra inteira: implorável. Compreendi então aquilo que não se pode implorar, o passado. Implorável e passado, palavras opostas. O que já vivemos não é implorável, só nos resta viver o presente com presença para que não imploremos algo no futuro impossível de implorar.


Ana Gil Campos

*Da coleção "A sorte da palavra da palavra à sorte"



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