segunda-feira, fevereiro 19

sexta-feira, fevereiro 16

Paradoxo

Tentarmos contrariar os próprios defeitos e, ao mesmo tempo, termos de tolerar os defeitos dos outros é muito ingrato, mas diz-se que se deve assim fazer para que habitemos harmoniosamente em sociedade. Mais ingrato é se os nossos defeitos não forem tão graves como os defeitos dos outros, como todos consideramos quase sempre. Contudo, se considerarmos que todos os defeitos têm o mesmo peso – coisa impossível, porque até o mesmo defeito na mesma pessoa tem pesos diferentes consoante as circunstâncias – há uma evidente ingratidão connosco em nos obrigarmos à correção dos próprios defeitos ao mesmo tempo que nos esforçamos em aceitar os outros tal como são, com todos os defeitos que têm.
Mas sobre este assunto, sobre os próprios defeitos e os defeitos dos outros, há outra questão relativamente ao tempo e ao investimento que fazemos em repararmos nos próprios defeitos ou nos defeitos dos outros – os defeitos dos outros normalmente são meticulosamente aprofundados e tema predileto de conversas coletivas, ao contrário dos nossos próprios defeitos, e este comportamento em si mesmo é um dos piores defeitos que podemos ter. Sendo que falar sobre os defeitos dos outros é um dos piores defeitos que podemos ter e, por isso, temos de nos obrigar a não o fazer, ao mesmo tempo que temos de tolerar este mesmo defeito nos outros, mais do que ingrato é um contrassenso, tal como com todo o tipo de defeitos existentes.
Ao considerarmos, e bem, que para podermos evoluir como seres humanos convém contrariarmos e corrigirmos os nossos defeitos, ao mesmo tempo que temos de aceitar esses mesmos defeitos nos outros para um bom convívio entre todos, podemos dizer que estamos perante um dos maiores paradoxos da sociedade.

sexta-feira, fevereiro 9

Acredito na humanidade

Acredito na humanidade e na sua permanente evolução, apesar de lenta. Não fosse a inerência do homem em tentar corromper os outros e deixar-se corromper, a evolução da humanidade seria mais célere. A total intolerância contra a corrupção e a qualquer tipo de guerra, seja religiosa ou económica, sendo que a primeira serve e é usada pela segunda, iriam permitir que esta evolução se desse mais depressa e de forma equitativa para todos, para que partes do globo não fossem penalizadas – não digo intencionalmente para que partes do globo não fossem beneficiadas, porque o objetivo deve ser exatamente esse, que qualquer parte do globo seja beneficiada porque é aqui que a fasquia deve estar para todos.
Vejo estas denúncias de atrizes famosas em relação ao abuso de poder através da coação sexual como algo positivo, como um passo importante para que a nossa espécie evolua mais uma vez. É verdade que estas denúncias já deveriam ter sido feitas, mas provavelmente se tivessem sido feitas no passado, seriam vozes que, para além de não serem ouvidas, seriam penalizadas. Mas o processo evolutivo dos direitos humanos é feito assim, espera lentamente por um momento propício para dar um pulo considerável. O mesmo aconteceu com a escravatura, por exemplo. Lentamente, com hipocrisia e moralismo tendencioso da maioria, e muita força de vontade de poucas pessoas que se juntaram, acabou-se com uma das maiores atrocidades do homem – mas apenas com aquela que era considerada legal, porque a escravatura clandestina continua a existir, especialmente a que usa a inocência de crianças sem qualquer tipo de proteção e cuidados. Ainda há muita coisa a fazer.
Sei que a podridão humana existe e fede a maldade, oportunismo e egoísmo, no entanto, também é verdade que esta se curva à vergonha, daí a necessidade de se esconder atrás de uma máscara de aparente superioridade, por vezes material, noutras intelectual ou até espiritual. Mas é o arrancar destas máscaras que faz com que aqueles que são humanamente superiores consigam vencer. Acredito que o bem tenha uma força superior ao mal, considerando o bem como tudo aquilo que respeita e permite os direitos humanos, e o mal como o seu oposto.
A maldade tem como único objetivo o interesse próprio, apesar de usar muitas vezes a ignorância ou a fragilidade coletiva – com a qual fazem lavagens cerebrais – como aliadas, sendo rápida e irreversível na devastação da vida humana num curto/médio espaço de tempo. Ao contrário, a bondade tem, para além do benefício próprio, o beneficio coletivo, levando a um tipo de união com uma força incalculável na sua perpetuidade. Esta evolução só é possível através de pequenos grupos de pessoas que ousam em coragem e que são fortemente criticados, ridicularizados e se possível prejudicados pelos hipócritas, por quem coagiu, por quem não quer ver o que se passa por ser demasiado feio e não ser nada com eles.
As leis, em qualquer parte do mundo, têm sido reescritas cada vez mais a proteger os direitos humanos, que vão sendo lentamente implantadas ao mesmo tempo que têm de resistir às críticas por quem se sentia bem e beneficiava com as leis antigas. Contudo, é bastante melhor vivermos com este tipo de críticas do que vivermos a aceitar como natural e viável o desrespeito pela condição humana, seja relativamente a uma minoria ou a país distante.
O melhor desta evolução é a herança que se vai deixando de geração em geração. Como a mim me parece impensável viver como escrava ou ter um escravo, ou me parece inadmissível as mulheres não terem o direito de votar, por exemplo, como era vigente durante o Estado Novo, talvez para as gerações futuras venha a ser confuso pensarem como já foi proibida a adoção de crianças por casais homossexuais, sendo preferível que estas não tivessem família nenhuma, por exemplo, ou que a distribuição da riqueza de determinados países fosse feita apenas para poucas famílias que constituíam o poder, enquanto a maioria da população vivia, à vista de todos e sem qualquer pudor de quem governava, entre o lixo e a fome.
Óbvio que esta herança valiosa tem de ser preservada pelas novas gerações para que não se perca, nem por breves períodos, mas o facto de não terem de conquistar muita coisa que foi sendo conquistada, dá-lhes tempo e espaço para conquistarem outros direitos humanos, e, assim, de geração em geração, vai-se dando a evolução da nossa espécie no que concerne à humanidade. 

sexta-feira, fevereiro 2

Morada ideal

O local onde moramos faz-nos sentir que é ali que pertencemos ou então faz-nos questionar o que estamos ali a fazer, orienta-nos ou desorienta-nos do nosso caminho, encontra-nos por acaso ou faz com que nos encontremos. O espaço à volta da nossa casa é das coisas mais marcantes da nossa vida, pelo seu significado ou ausência dele, pelas marcas que nos deixa, pelas memórias que ficam, pelos sonhos realizados ou que ficaram por realizar.
Quase nunca se escolhe o local onde se vive, é sempre uma consequência de uma escolha principal, porque é o local onde se trabalha ou onde vive quem amamos, ou nem chega a ser qualquer tipo de escolha consciente, é simplesmente o local onde nos habituamos a viver sem qualquer questionamento, como o local onde nascemos e vive a nossa família ou o local para onde a vida nos arrastou.
Uma das maiores liberdades da vida - para além de partilharmos a vida com quem amamos e que nos ama e de fazermos profissionalmente aquilo que nos realiza profundamente - deve ser escolher o sítio onde se quer viver sem qualquer tipo de condicionamento. Quase todos sonhamos com a casa ou o apartamento onde gostaríamos de viver, mas o local, como seria? A minha morada ideal seria uma mistura de Paraty pela sua simplicidade e beleza da Mata Atlântica a querer entrar no mar, a areia negra da Madeira sempre com o oceano no horizonte e a floresta do Gerês para divagar durante longas caminhadas. Algo deste género seria perfeito. 

sexta-feira, janeiro 26

Coerência da incoerência

Vejo com respeito a incoerência perante nós próprios, perante os outros e perante a vida. Aquilo que pensamos, dizemos ou sentimos hoje, não pode condicionar a liberdade daquilo que iremos pensar, dizer ou sentir no futuro. Não nos podemos prender para aparentarmos coerência. Se a vida muda, mudando-nos, e se nós mudamos, mudando a vida, e se viver é isto tudo junto, a incoerência é natural, é imprescindível para a nossa readaptação, para que haja coerência, é sinal de evolução, do uso do exercício mental e da curiosidade em querer saber mais chegando à conclusão de que tudo muda, entregando-nos uma falsa incoerência. A cada instante somos coerentes, mas a coerência de amanhã poderá, com toda a dignidade, ser outra. A única coisa que nos dá uma aparente coerência é o nosso aspeto físico e a nossa voz, o resto, se não estiver adormecido ou estupidificado, é incoerente, e assim se move a vida, movendo-nos nela. Quantas vezes nos contradizemos, em atos e opiniões, numa permanente incoerência que nos leva à coerência de quem somos hoje. 

sexta-feira, janeiro 19

Diz que disse

A parte final dos telejornais tem qualquer coisa de sectário. Mudo de canal para canal, na esperança de encontrar outra notícia, e parecem ter combinado falar, ao mesmo tempo, de desporto. Desporto, dizem assim genericamente, mas na realidade fala-se quase exclusivamente de futebol. Não sendo uma adepta deste desporto, vou sabendo sem me interessar – e questionando-me constantemente qual a relevância disso para o país – que treinador insultou determinado treinador, quem são as namoradas dos presidentes, para onde vão estudar os filhos dos jogadores e outros assuntos que giram à volta do que se passa dentro do campo de futebol. É como se os telejornais resolvessem dedicar a mesma meia hora de tempo de antena à cultura e falassem quase exclusivamente de telenovelas e das amizades e intrigas dos bastidores. O mesmo acontece com a política. O “diz que disse” é tanto que o que se informa efetivamente sobre política é quase nada. Além disto, cada canal tem pelo menos um comentador político e desportivo, isto é, de futebol, e, no dia seguinte, aquilo que disseram no dia anterior passa a ser notícia. A dada altura, durante a emissão dos telejornais, sinto estar a ser entretida em vez de estar a ser informada. Afinal, o que é informação? Tudo pode ser informação, mas num telejornal genérico os temas não deveriam ser mais sérios e a informação dada de forma objetiva? Qual é a diferença entre aquilo que interessa informar, o que interessa saber às pessoas e o que é informação? Muitas vezes, são três coisas distintas, o que é uma pena.  

sexta-feira, janeiro 12

Vida não tão íntima assim

Atualmente, uma das promessas mais habituais para o novo ano, que se junta aos cuidados com a alimentação, deixar de fumar e fazer exercício físico – e que em fevereiro é como se nunca tivessem existido -, é o uso menos frequente, ou em casos mais radicais a exclusão total, de redes sociais. Se isto acontece, deve-se certamente a algum desconforto psicológico que se poderá manifestar fisicamente e que as pessoas associam, com plena consciência, ao uso destas plataformas eletrónicas que nos impelem a expormo-nos sem qualquer necessidade, por um lado, e a sermos de certa forma violados com informações sobre os outros que dispensaríamos conhecer.
A exposição da nossa vida íntima, como com quem estamos, onde estamos, quem amamos, o que fazemos com os nossos familiares e amigos, como são os cantos da nossa casa, é algo que vai completamente contra aquilo que nos protege enquanto seres humanos, a nossa privacidade, aquilo que mais deveríamos proteger pela proteção que nos devolve.
Ao contrário das teorias que defendem que esta exposição da vida íntima se deve a um desejo de querer chamar atenção sobre si próprio devido a baixa autoestima, parece-me ser mais a cópia de um comportamento que quase todas as pessoas adotaram assumindo-o como natural. Não passa da opção por seguir o caminho do rebanho que nos cega ao ponto de não nos questionarmos sobre o motivo por que nos expomos tanto e, mais do que refletirmos sobre o que ganhamos com isto, de refletirmos sobre aquilo que poderemos perder com este comportamento. O que perdemos com a perda da nossa privacidade é a questão que se levanta relativamente à exposição da nossa vida íntima nas redes sociais.
Há claramente uma necessidade de confirmarmos a nossa existência, como quem diz “estou aqui”. Mas “estamos aqui” para quem, em que mundo e em que vida? Não estaremos a enfraquecer assim os laços que criamos com tempo e dedicação na nossa vida real, naquela que existe efetivamente? Ao usarmos parte do nosso tempo diário nas redes sociais, estamos a roubá-lo de outros assuntos e pessoas que provavelmente nos preencheriam e enriqueceriam mais. Assim, ficamos sem tempo e disponibilidade para sermos e estarmos na nossa própria vida, mas com tempo para aparentarmos ser e estar, e observarmos palidamente a aparência da existência dos outros, como se não existíssemos na totalidade, como se os outros não passassem de meros objetos que nos aparecem instantaneamente para desaparecerem no segundo a seguir, como se estivéssemos mais preocupados em roubarmos uma parte do momento que estamos a viver expondo fotografias e fazendo comentários que na realidade não vivemos inteiramente com a ansiedade de os partilharmos com os demais, e com a curiosidade apática de vermos a exposição da vida de terceiros.
Se as redes sociais deixassem simplesmente de existir por um ataque informático impossível de resolver – não estou a incitar à pirataria, mas este particularmente teria o seu lado positivo – o que seria da vida das pessoas? Provavelmente regressariam à vida com toda a sua completude. Provavelmente os encontros pessoais seriam mais frequentes e as pessoas voltariam a descobrir interesses reais na sua vida real.
Também se estão a perder, com o uso das redes sociais, a capacidade de empatia e a perspicácia em perceber o que a outra pessoa está a pensar ou a sentir através dos seus gestos mudos. Isto, perceber o outro, aprende-se e treina-se estando com as pessoas em contacto direto. Além disso, o uso das redes sociais obriga à aprendizagem e entendimento de outra linguagem completamente diferente daquela a que chamarei de humana. A linguagem virtual realiza-se através de gostos, de comentários aos comentários feitos muitas vezes em tempos desfasados, de partilhas, de identificações…
A linguagem virtual, ainda mais do que a linguagem humana, pode ser ambígua, incompreendida ou interpretada de maneira completamente distorcida, isto porque não está acompanhada pela expressão facial e corporal, aquilo que nos dá e entrega ao outro humanidade. Nas redes sociais não passamos de robôs que até existem na vida real, e, ao permitirmos e optarmos por sermos também robôs, vamos deixando de ser totalmente humanos, o que faz de nós híbridos sem termos consciência disto.