sexta-feira, janeiro 19

Diz que disse

A parte final dos telejornais tem qualquer coisa de sectário. Mudo de canal para canal, na esperança de encontrar outra notícia, e parecem ter combinado falar, ao mesmo tempo, de desporto. Desporto, dizem assim genericamente, mas na realidade fala-se quase exclusivamente de futebol. Não sendo uma adepta deste desporto, vou sabendo sem me interessar – e questionando-me constantemente qual a relevância disso para o país – que treinador insultou determinado treinador, quem são as namoradas dos presidentes, para onde vão estudar os filhos dos jogadores e outros assuntos que giram à volta do que se passa dentro do campo de futebol. É como se os telejornais resolvessem dedicar a mesma meia hora de tempo de antena à cultura e falassem quase exclusivamente de telenovelas e das amizades e intrigas dos bastidores. O mesmo acontece com a política. O “diz que disse” é tanto que o que se informa efetivamente sobre política é quase nada. Além disto, cada canal tem pelo menos um comentador político e desportivo, isto é, de futebol, e, no dia seguinte, aquilo que disseram no dia anterior passa a ser notícia. A dada altura, durante a emissão dos telejornais, sinto estar a ser entretida em vez de estar a ser informada. Afinal, o que é informação? Tudo pode ser informação, mas num telejornal genérico os temas não deveriam ser mais sérios e a informação dada de forma objetiva? Qual é a diferença entre aquilo que interessa informar, o que interessa saber às pessoas e o que é informação? Muitas vezes, são três coisas distintas, o que é uma pena.  

sexta-feira, janeiro 12

Vida não tão íntima assim

Atualmente, uma das promessas mais habituais para o novo ano, que se junta aos cuidados com a alimentação, deixar de fumar e fazer exercício físico – e que em fevereiro é como se nunca tivessem existido -, é o uso menos frequente, ou em casos mais radicais a exclusão total, de redes sociais. Se isto acontece, deve-se certamente a algum desconforto psicológico que se poderá manifestar fisicamente e que as pessoas associam, com plena consciência, ao uso destas plataformas eletrónicas que nos impelem a expormo-nos sem qualquer necessidade, por um lado, e a sermos de certa forma violados com informações sobre os outros que dispensaríamos conhecer.
A exposição da nossa vida íntima, como com quem estamos, onde estamos, quem amamos, o que fazemos com os nossos familiares e amigos, como são os cantos da nossa casa, é algo que vai completamente contra aquilo que nos protege enquanto seres humanos, a nossa privacidade, aquilo que mais deveríamos proteger pela proteção que nos devolve.
Ao contrário das teorias que defendem que esta exposição da vida íntima se deve a um desejo de querer chamar atenção sobre si próprio devido a baixa autoestima, parece-me ser mais a cópia de um comportamento que quase todas as pessoas adotaram assumindo-o como natural. Não passa da opção por seguir o caminho do rebanho que nos cega ao ponto de não nos questionarmos sobre o motivo por que nos expomos tanto e, mais do que refletirmos sobre o que ganhamos com isto, de refletirmos sobre aquilo que poderemos perder com este comportamento. O que perdemos com a perda da nossa privacidade é a questão que se levanta relativamente à exposição da nossa vida íntima nas redes sociais.
Há claramente uma necessidade de confirmarmos a nossa existência, como quem diz “estou aqui”. Mas “estamos aqui” para quem, em que mundo e em que vida? Não estaremos a enfraquecer assim os laços que criamos com tempo e dedicação na nossa vida real, naquela que existe efetivamente? Ao usarmos parte do nosso tempo diário nas redes sociais, estamos a roubá-lo de outros assuntos e pessoas que provavelmente nos preencheriam e enriqueceriam mais. Assim, ficamos sem tempo e disponibilidade para sermos e estarmos na nossa própria vida, mas com tempo para aparentarmos ser e estar, e observarmos palidamente a aparência da existência dos outros, como se não existíssemos na totalidade, como se os outros não passassem de meros objetos que nos aparecem instantaneamente para desaparecerem no segundo a seguir, como se estivéssemos mais preocupados em roubarmos uma parte do momento que estamos a viver expondo fotografias e fazendo comentários que na realidade não vivemos inteiramente com a ansiedade de os partilharmos com os demais, e com a curiosidade apática de vermos a exposição da vida de terceiros.
Se as redes sociais deixassem simplesmente de existir por um ataque informático impossível de resolver – não estou a incitar à pirataria, mas este particularmente teria o seu lado positivo – o que seria da vida das pessoas? Provavelmente regressariam à vida com toda a sua completude. Provavelmente os encontros pessoais seriam mais frequentes e as pessoas voltariam a descobrir interesses reais na sua vida real.
Também se estão a perder, com o uso das redes sociais, a capacidade de empatia e a perspicácia em perceber o que a outra pessoa está a pensar ou a sentir através dos seus gestos mudos. Isto, perceber o outro, aprende-se e treina-se estando com as pessoas em contacto direto. Além disso, o uso das redes sociais obriga à aprendizagem e entendimento de outra linguagem completamente diferente daquela a que chamarei de humana. A linguagem virtual realiza-se através de gostos, de comentários aos comentários feitos muitas vezes em tempos desfasados, de partilhas, de identificações…
A linguagem virtual, ainda mais do que a linguagem humana, pode ser ambígua, incompreendida ou interpretada de maneira completamente distorcida, isto porque não está acompanhada pela expressão facial e corporal, aquilo que nos dá e entrega ao outro humanidade. Nas redes sociais não passamos de robôs que até existem na vida real, e, ao permitirmos e optarmos por sermos também robôs, vamos deixando de ser totalmente humanos, o que faz de nós híbridos sem termos consciência disto.