terça-feira, março 5

8 de março


Dia 8 de março, dia internacional da mulher. Hoje, como todos os dias, deveria ser dia de tolerância zero contra a injustiça da própria justiça em relação às vítimas de violência doméstica, física ou psicológica, mas não é. Os magistrados aplicando apenas penas suspensas – penas suspensas? Penas de medo diário, de agressões contínuas, de morte para estas mulheres. -, calam as vítimas, tentam ridicularizá-las, oprimem-nas, esmagam mais uma vez a sua dignidade, direito humano fundamental a qualquer pessoa.
Em algumas sentenças (e basta uma para ser intolerável) vislumbram-se palmadinhas nas costas e piscar de olhos subtis entre os agressores básicos e alguns magistrados, mas não subtis o suficiente para não deixarem de sugerir uma cumplicidade às claras. Será a justiça a principal cúmplice da violência doméstica?
A punição dos agressores prevista na lei tem de ser impreterivelmente aplicada. Se já é aplicada, que se ajuste a lei para que seja efetivamente justa para as vítimas. Comportamentos animalescos dos agressores aliados à justificação de sentenças com base na moralidade, crenças e preconceitos é uma vergonha grotesca para o nosso país. Para mim é, como portuguesa, como ser humano.
Hoje, como todos os dias, é dia de dizer não, de dizer chega, que não permitimos que esta cumplicidade sem razão continue. Importamo-nos porque todos temos responsabilidade em relação ao outro, em relação às vítimas e nada está acima destas.

domingo, janeiro 6

Conto

NUVEM DENSA DE CALOR

Perco mais uma vez o transporte e nunca sei se chego cedo ou se chego tarde. Se chego tarde, perco-o. Se chego cedo, perco-o na mesma pois não tenho paciência para o esperar. Vou a pé para casa. É já ali de qualquer forma.

- Vá a correr para casa! Abrigue-se o mais depressa que puder! – diz um homem que se abeira de mim com um guarda-chuva aberto sobre as nossas cabeças. – Quer que a abrigue a qualquer lado? Mora perto?
- Sim, a minha casa é já ali… Mas não está a chover.
- Mas vai chover! Daqui a pouco, poucochinho, vai cair uma chuva pesada, daquela furiosa, e não vem sozinha! Com a chuva vêm raios, trovoada, da que grita! O vento vai arrastar telhados e a saraiva vai partir vidros! Não é prudente andar na rua. Vou andando, está bem? Corra, corra para casa!

Dobra uma esquina e desaparece na noite quente, tão quente como se fosse de dia. O trânsito caótico também cá anda como se fosse hora de ponta. Durante o dia é um silêncio fino, as ruas estão desertas em dormência profunda. Mas agora, a esta hora já tardia, a orquestra urbana usa todos os instrumentos que tem: carros, autocarros, motos, aviões, helicópteros, pessoas e pessoas que, por serem tantas, nem se veem umas às outras.
Um casamento a esta hora… Convidados elegantes e formais esperam os noivos à porta da igreja, nesta atmosfera noturna que ferve de tão quente que está. As flores estão fechadinhas, afinal é durante a noite que dormem. Mas as pessoas apresentam-se despertas, com os olhos vivos e brilhantes, com a pele fresca como se fosse de manhã.
Abeiro-me de um quiosque para ler os títulos dos jornais. Ao ler os títulos não leio as notícias, ao ler as notícias não percebo os seus títulos. Mas… estes jornais são de amanhã… Como sabem as notícias de amanhã se ainda é hoje?

- Deite o relógio fora – diz a senhora que vende os jornais.
Olho para o pulso. O relógio funciona.
- A não ser que marque o tempo certo para si. Cada um de nós tem o seu tempo – diz pensativa.


Afasto-me e continuo a caminhar para casa. Não chove nem troveja e o vento também não apareceu. Até me custam os passos lentos ao empurrar esta nuvem densa de calor que me prende os pés, pesadas pegadas invisíveis que vou deixando para trás. Consigo chegar a casa, arrastando-me contra o tempo longo de tão lento que está. Abro a caixa do correio. Encontro uma carta com um selo de outro país, de um país longínquo onde agora é inverno, onde talvez seja de dia, um dia de ontem ou de amanhã, mas a morada do remetente fica aqui perto, pertence à cidade onde vivo.




segunda-feira, junho 25

O céu
banhado de azul
Como o mar?
Parecido
No céu também há rios
Vermelho
rosa
prata
jasmim
Azul azul é raro
um beijo deixado cair
uma estrela mansa.

segunda-feira, junho 18


Talvez amanhã seja o dia,
talvez chegue amanhã
a convicção de se existir apenas.
Existir apenas exige muito,
exige renunciar ao fútil,
ao extenuante,
ao desnecessário.
Toda a simplicidade parece contraditória,
talvez assuste,
e confunda também.
Existir apenas é tão nu que não há pudor que aguente.
Afugenta.
A simplicidade afugenta?
Absurdo.
Talvez amanhã,
num adiar responsável
de que depois de amanhã também é amanhã,
existir apenas fique.

quinta-feira, junho 14

Gostaria de saber
- apenas por curiosidade
e se a resposta não for de agrado
sem pejo será ignorada,
se o real é real.
É que, por vezes
parece não ser,
e talvez a realidade,
apesar de próxima,
pelo comodismo seja uma cortina translúcida,
vendo o cínico a irrealidade de tanto em tudo.
Que pelo menos seja real
a bem amada hipocrisia.

sexta-feira, junho 8


A tristeza surge,
impetuosa como um puxão de mão,
ou então num leve sossego
como uma mordida de mosca,
uma chamada de atenção,
a sensatez.

terça-feira, junho 5

sexta-feira, junho 1


Hoje,
mais um dia de doçura,
de toda a ternura
das pequenas criaturas
que se espantam perante tudo
ainda pela primeira vez.

quarta-feira, maio 30


Na lisura do vento
                      passeiam palavras em prece


Hoje, sem ser festa nem feriado, fez-se festa quase feriado, abriu uma nova livraria.

sábado, maio 26

quinta-feira, maio 24


Ficarei muda para te ouvir
                     (afónica, quase em silêncio)
ouvirei cada palavra tua
p a u s a d a m e n t e

sexta-feira, março 23

Estado contemplativo


Estado contemplativo
numa presença ausente
mas mais presente
do que quando me julgo (socialmente) presente.
Vozes em gestos
formas fixas com som
silêncio dos que se movem (quase parados).
Presença dos outros
(sem que lhes fale)
numa ausência de mim
mas onde me vou encontrar
(divagando, divagando, divagando,
até que encontro o que me procura).
Partículas do café
(como gosto de café)
acabado de tomar,
estado contemplativo
onde o tempo
não ocupa o seu lugar.
Perda de tempo?
Não há melhor tempo
(o que define o tempo?)
onde todos os sentidos se amplificam
(numa brutalidade lenta)
no mesmo lugar.


Ana Gil Campos
São Paulo, 29 de Janeiro de 2015

Coração comum


Quando chega o vento,
o veloz vento,
que dissipará esta nuvem?
Nuvem imensamente triste,
tremenda,
que arrasta arrasando
o mundo consigo.
Nuvem que quando chove
molha-nos de medo,
e é este medo que transpiramos
que salivamos
que choramos.
Chuva tóxica que queima cada pele,
todas as peles de todas as aldeias,
cidades, lugares, terras.
Choramos,
não sabemos, mas choramos.
Choramos de medo.
Aquilo que se berra
é choro,
aquelas palavras de ódio
são choro,
e a culpa deste choro
é desta nuvem,
desta carregada nuvem por cima das nossas cabeças
que não desaparece.
Desaparece, desaparece, desaparece…
pedimos em silêncio
num choro que não sabemos chorar.
Olhamos, contestamos ou calamo-nos
com um medo que não sabemos sentir.
Discutem-se orçamentos,
vírus, fronteiras,
leis e contra leis.
Discutem-se ou inventam-se?
Acaso ou proveito?
Enquanto isso,
a sombra desta nuvem que nos oprime cada vez mais,
a cada dia que passa,
congela-nos o corpo,
o coração comum.


Ana Gil Campos
Porto, 26 de Janeiro de 2016

Sabor silvestre

Não me interessa
quantos graus,
borbulhou.
Numa desordem
de ordem caótica,
borbulhou.
Sem rimas
nem pressas,
borbulhou.
Pequenas gotas
saltitantes,
irritantes,
pertinentes nesta hora
como as quero,
borbulhou.
E agora descanso,
mergulho lentamente doces flores,
frutas quentes,
maça, chicória,
groselha negra,
rosa silvestre,
mirtilo, framboesa.
A pureza da água
tinge-se de sangue silvestre,
lentamente
bruscamente
passa a vermelho quente.
Queima
sem queimar,
aquece
sem cegar.
O seu néctar
bebe-me os sentidos.
O chá de gotas selvagens,
puro por assim ser,
aquece sem cegar.

Ana Gil Campos
São Paulo, 31 de Julho de 2014