sexta-feira, julho 7

Momento da paixão

Há pessoas que se apaixonam facilmente, outras com muita dificuldade. Será que isso tem que ver com o motivo que leva à paixão?
Quando se está apaixonado, os defeitos do outro, que são relativos a cada um, transformam-se num tabu para o apaixonado, porque ao mesmo tempo que os vê, esconde-os de si próprio. Se por um lado os defeitos detetados passam a ser tabu, as suas virtudes passam a ter uma dimensão exagerada. E é aqui, nas qualidades, que o apaixonado escolhe focar a sua atenção. Mas isto acontece porque antes da paixão há uma idealização da pessoa por quem nos vamos ou estamos a apaixonar. Se a idealização começa antes de nos apaixonarmos por alguém, não será assim a idealização o motor da paixão?
São fatores externos de determinado momento da nossa vida que fazem com que a idealização pela outra pessoa aconteça. Apaixonamo-nos por alguém num determinado momento da nossa vida em circunstâncias muito específicas dessa altura. Será que no passado ou no futuro da nossa vida, em que as circunstâncias eram ou seriam outras, nós próprios erámos ou seríamos eventualmente diferentes, a paixão por essa pessoa aconteceria?
A idealização prossegue após o início da relação com o ser por quem se está apaixonado. Rapidamente queremos saber tudo sobre a outra pessoa, conhecer a sua família, fazer parte das suas rotinas. Rapidamente queremos estar presente na sua vida todos os dias, ter a perfeição do outro na nossa própria vida. Há, ao mesmo tempo, um interesse e um fascínio pela vida da outra pessoa. Sentimos que ao fazermos parte da vida de alguém tão especial, e que nos faz sentir especial, iremos alcançar em nós próprios, e na nossa própria vida consequentemente, a perfeição. Esta pessoa que até há pouco tempo era como se não existisse, passa a ter uma existência quase vital para nós, cria-nos necessidades que não existiam. Rapidamente se constata que se ama aquela pessoa como nunca se amou mais nenhuma. Rapidamente. A paixão é rápida a tirar conclusões importantes.
Apesar de idealizarmos o outro, torna-se assustador quando nos apercebemos que o outro também nos idealiza. Apesar da idealização que o outro cria relativamente a nós nos fazer sentir especial, também nos cria um certo pânico por sabermos que quando essa idealização acabar, a outra pessoa irá descobrir que somos tão humanos como outra pessoa qualquer com tudo o que isso implica.
Mas a idealização por alguém antes de nos apaixonarmos por ela é natural, visto que só nos apaixonarmos por quem não conhecemos. Quando algumas pessoas afirmam terem-se apaixonado por um amigo que conhecem há muito tempo, não estarão a confundir amor com paixão? A amizade ou a paixão podem transformar-se em amor, mas a paixão aparece pelo desconhecido, do desconhecimento pelo outro que nos leva a fantasiar como seria estar com aquela pessoa, como seria tudo e como seríamos se aquela pessoa fizesse parte da nossa vida, preenchendo aquele vazio que sabemos que nos irá realizar e dar um sentido específico à nossa vida, como se tudo se conjugasse finalmente. Essa pessoa vem entregar-nos aquilo de que precisamos, ou achamos que precisamos, nesse determinado momento da nossa vida. Este vazio será diferente em diferentes fases da nossa vida, por isso, a paixão por determinada pessoa provavelmente só aconteceria nesse momento específico da nossa vida. 

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