sexta-feira, maio 26

Inevitabilidade do amor

Inevitavelmente todos acreditamos na mesma coisa, conscientemente ou não, desde tenra idade, que há alguém no mundo que nos está destinado. Quando conhecemos alguém que preenche os nossos requisitos de completude, esta certeza ainda se torna maior, e a hipótese de este encontro ter sido mero acaso é o mais perfeito absurdo. O mais engraçado é que podemos sentir isto mais do que uma vez na vida e a relação mais presente é sempre a mais real, a mais verdadeira, e tudo o que ficou para trás foram equívocos, confusões do nosso coração, ou da nossa mente. Quando se deixa de gostar de alguém, essa pessoa deixa de ter, aos nossos olhos, interesses em comum e não nos consegue compreender. Depois, aparece uma pessoa que, sem qualquer dúvida, tem tudo a ver com a pessoa que somos e a história recomeça.
Quando estamos apaixonados, não há acasos nem coincidências, há apenas o destino. Todos os pormenores indicam que alguém no céu conspirou em nosso favor, acreditamos que mesmo antes de nascermos essa pessoa já nos estava destinada e que uma das nossas missões na vida é encontrá-la. Não colocamos a hipótese de as coincidências, que passam a ser provas de que o destino está a acontecer, poderiam não ter acontecido por qualquer fator, e, assim, o encontro com essa pessoa nunca teria acontecido e isso seria igualmente viável e natural.  
No entanto, tentarmos ser racionais numa relação amorosa talvez não faça muito sentido. Talvez acabe com o sentimento e não permita que este se desenvolva. Será que devemos racionalizar uma relação amorosa? Porquê e para quê? Mas mesmo que tentemos pensar com racionalidade os acontecimento quando estamos apaixonados por alguém, os factos, neste caso, só vêm reforçar a força do destino. A força da paixão é superior à da racionalidade e esta passa a existir em função da primeira. É o destino.
Acreditamos no destino talvez porque não queremos assumir que as coisas acontecem não por acaso, mas porque agimos nesse sentido, ou fomos passivos perante os acontecimentos – outra força de agir. Acreditamos no destino talvez pelo medo de não conhecermos alguém especial que goste de nós também. Acreditamos no destino talvez pelo comodismo de não fazermos nada para conquistarmos ou mantermos uma pessoa querida na nossa vida. Acreditamos no destino talvez por simplesmente termos uma alma romântica. Acreditarmos no destino dá muito jeito, tanto para as coisas boas como para as menos boas.
O acaso tem o significado que lhe quisermos dar, sendo que acreditarmos que o acaso é o destino é um deles. Será que a existência de um grande amor na nossa vida depende enormemente daquilo em que acreditamos? Talvez seja esta crença que protege e fortalece o amor no início de uma relação amorosa. As coisas existem conforme acreditamos nelas e, se duas pessoas na mesma relação acreditam exatamente no mesmo, esse mesmo existe e acontece.
Ao acreditarmos que estamos a viver um amor especial, o amor da nossa vida, deixa de fazer sentido a hipótese de nos termos apaixonado por outra pessoa qualquer em vez desta. Ao afastarmos esta possibilidade, estamos mais uma vez a protegermos essa relação.  
Outra questão: será que é inevitável amar determinada pessoa ou amar? Se tudo correr bem, iremos amar pelo menos uma vez na vida ou uma vez durante a vida toda, isto é, o que é realmente inevitável é amarmos, independentemente da pessoa. Mas acreditarmos que seria inevitável na nossa vida encontramos a pessoa que amamos, que se não tivesse sido naquela ocasião teria sido noutra, significa que ainda estamos apaixonados por ela. Quando o encantamento pela pessoa amada deixa de existir, automaticamente este tipo de raciocínio deixa de fazer sentido e concluímos imediatamente que estávamos iludidos. A nossa crença passa a ser outra.
Há muita racionalidade numa relação amorosa porque escolhemos aquilo em que queremos acreditar e todos os argumentos são lógicos e racionais para alguém apaixonado, mesmo que não passem de meros acasos. Concluindo, não interessam os argumentos racionais que se tentam encontrar para confirmar um sentimento, o importante é amar muito o outro com tudo aquilo que temos para dar. Se é obra do destino ou não, nada importa, porque se o destino existe, tudo aquilo que acontece na nossa vida é obra do destino, retirando assim qualquer protagonismo a um acontecimento específico na nossa vida como obra do destino.

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